Pastoral da Música
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Cantilacao: Salmo Responsorial – Musica & Cia 21.01 – Laercio Filho

28/01/2012  |  0 COMENTÁRIOS  |  pastoraldamusica.com.br

Dai graças ao Senhor, porque ele é bom!*

‘Eterna é a sua misericórdia!’

A casa de Israel agora o diga:*

‘Eterna é a sua misericórdia!’

A mão direita do Senhor fez maravilhas,*

a mão direita do Senhor me levantou,

Não morrerei, mas ao contrário, viverei*

para cantar as grandes obras do Senhor!

‘A pedra que os pedreiros rejeitaram,*

tornou-se agora a pedra angular.

Pelo Senhor é que foi feito tudo isso:*

Que maravilhas ele fez a nossos olhos!

Este é o dia que o Senhor fez para nós:

alegremo-nos e nele exultemos!

(Salmo 117. Música de Laércio Filho)

 

Olá Betinho, olá Leo Nobre, olá queridos ouvintes do programa Música & Cia,

Como nós, na semana passada, conversamos sobre a Palavra de Deus na liturgia e sobre o canto de comunhão, que está intimamente vinculado à Palavra, me animei para puxar nossa conversa de hoje nessa mesma linha lógica, dessa vez a respeito de outro canto da Santa Missa também muito relacionado à proclamação das Escrituras do dia. Aliás, ele não está relacionado: ele é parte integrante da Liturgia da Palavra! Bem, vocês já devem ter adivinhado a qual estou me referindo. Sim, é o Salmo Responsorial.

Ele também é muito especial. Os Salmos e os Cânticos Bíblicos são a melhor escola de oração cristã e o melhor modelo de texto para nossas músicas [1]. Cantando salmos, cantamos com Cristo para o Pai, iluminados pelo Espírito Santo, com as próprias palavras que o Senhor inspirou ao salmista. Usamos as próprias palavras do Altíssimo para, animados por seu Espírito, unir nossa voz à voz do Ressuscitado. Não é uma beleza rezar e cantar assim?

Vamos ver o que a Igreja nos tem a ensinar sobre o salmo responsorial? Nos ensina a Introdução Geral ao Missal Romano [2], em relação a ele, o trecho que citarei e comentarei agora:

À primeira leitura segue-se o salmo responsorial, que é parte integrante da Liturgia da Palavra, constituindo-se em grande importância litúrgica e pastoral, por favorecer a meditação da Palavra de Deus.

O Salmo responsorial corresponda a cada leitura e normalmente seja tomado do lecionário.

De preferência, o salmo responsorial será cantado, ao menos no que se refere ao refrão do povo. Assim, o salmista ou cantor do salmo, do ambão ou outro lugar adequado, profere os versículos do salmo, enquanto toda a assembleia escuta sentada, geralmente participando pelo refrão, a não ser que o salmo seja proferido de modo contínuo,isto é, sem refrão. (…)

Vejam que, com essa disposição da Instrução ao Missal, o salmista deverá, preferencialmente, cantá-lo do ambão. Mas dá opção para que seja feito a partir de “outro lugar adequado”, sem especificar exatamente o que seria esse “adequado”. Como regra (e toda regra admite exceções!), cantemos o salmo sempre a partir do ambão, ou mesa da Palavra, como se proclamam todas as outras leituras da missa. Vamos continuar com leitura da Instrução Geral ao Missal Romano. Ele prossegue:

Em lugar do salmo proposto no lecionário pode-se cantar também um responsório gradual do Gradual Romano ou um salmo responsorial ou aleluiático do Gradual Simples, como se encontram nesses livros.

Da leitura deste trecho, vemos que há possibilidades para substituir o salmo proposto no lecionário, mas as opções permitidas estão contidas em dois hinários quase desconhecidos por nossos músicos, os Graduais Romano e Simples. Em outra oportunidade conversaremos sobre eles. Para todos os fins práticos, devemos nos ater aos textos contidos no lecionário.

Vou ler agora algumas orientações que a CNBB [3] passa aos músicos em um interessante documento chamado “A Música Litúrgica no Brasil”, e que pode ser acessado e lido em seu site da Internet. Em relação ao salmo responsorial, ele nos orienta:

249. O salmista exerce o ministério litúrgico de cantar o salmo após a proclamação da primeira leitura da missa ou da celebração dominical da Palavra. O salmo é entoado na estante da Palavra onde o salmista entoa as estrofes, e a assembleia repete o refrão. O salmo responsorial é o canto mais importante da liturgia da Palavra, por isso, além do requisito de uma boa voz, o salmista deverá executá-lo com o máximo de expressividade e clareza, numa atitude orante, como convém a todos os que exercem o ministério de proclamar a Palavra de Deus.

É importante que nós tenhamos a correta noção de que o salmo responsorial faz parte da liturgia da Palavra e seu cantor faz, na verdade, uma proclamação. E a proclamação é para ser bem escutada, bem compreendida! O texto continua:

250. Durante a execução do salmo, o salmista deve cantar sempre a melodia principal do refrão e das estrofes do salmo. Portanto, evite-se quaisquer artifícios que venham dificultar a assembleia na compreensão do texto como, por exemplo, o uso de uma segunda voz ou contracanto.

Nossos salmos têm sido bem cantados? A música tem sido um auxiliar para dar mais eficácia ao texto, como nos ensinou o papa São Pio X [4]? Quero agora falar com vocês um pouco sobre o jeito que nós temos usado para cantar os salmos responsoriais. Tenho observado muito na arquidiocese de Brasília, mas também em muitos outros lugares do Brasil, uma tendência de se improvisar o salmo responsorial, ou ainda de se adaptar ou improvisar composições de má qualidade para ele.

Fico com a impressão de que, como o texto do salmo responsorial está rigidamente definido, os músicos encontraram ali uma oportunidade para exercitar sua criatividade musical, elaborando músicas próprias para aquela proclamação. Em minha paróquia, o Santuário São Francisco de Assis, na Asa Norte, há vários anos se faz isso. Diversos sites de música católica na Internet divulgam semanalmente os vídeos do salmo do próximo domingo. A qualidade dessas músicas varia bastante, entre o ótimo e o péssimo, mas a tendência, em minha opinião, tem sido a mediocridade. Quero falar aqui de algumas coisas com vocês, queridos ouvintes, para que vocês possam, com serenidade, meditar a respeito de como temos cantado nossos salmos responsoriais em nossas missas.

Começando: na missa, os salmos são parte da liturgia da Palavra. São proclamação cantada da Palavra. Esse jeito cantado de se ler as Escrituras não é coisa nova. Não foi sequer inventada pela Igreja. Ela vem do tempo do Antigo Testamento. Há uma palavra hebraica para esse jeito de ler cantando, que chamamos em português de cantilar, é a palavra ta’am, que pode ser traduzida de algumas maneiras, como “sabor”, “razão” ou “acento”. Nos tempos bíblicos, não existia partitura, e as indicações das inflexões melódicas eram feitas por meio de pequenos sinais grafados embaixo ou acima das palavras da Torá. Um certo rabino do século XII escreveu que essa tradição de cantilar as Escrituras teria sido dada por Deus no Monte Sinai e que seria tão antiga quanto a própria Torá e os Dez Mandamentos [5]. Vejam com que reverência tratavam e tratam os hebreus a cantilação.

E com o que se parece essa cantilação dos judeus? É muito parecida com o canto gregoriano! Aliás, temos todos os motivos para acreditar que o canto gregoriano, também conhecido como cantochão, surgiu a partir do canto das sinagogas e do Templo de Jerusalém. O que caracteriza o cantochão? Ritmo totalmente prosódico, ou seja, completamente vinculado aos acentos naturais das palavras que estão sendo lidas. Nele, palavras mais importantes, como Cristo, são destacadas na melodia. Não há compasso definido. O texto não corre atrás do andamento. Geralmente, não há nenhum acompanhamento instrumental. Quando se cantila bem, o texto brilha cristalino!

Mas a arte de cantilar não é para qualquer um… Para fazer isso bem podem ser necessários anos de treinamento. Os antigos judeus ensinavam isso de pai para filho. Os cristãos aprendiam isso nos seminários e mosteiros. E o povo de Deus? E os músicos leigos, que começaram a tocar e cantar nos ofícios religiosos com importância a partir do século XVIII? Bem, coincidência ou não, essa foi justamente a época na qual o cantochão começou a declinar na Cristandade. O ocidente começou a ser dominado pela assim chamada música figurada. Inventou o compasso. E o compasso escravizou a música.

Hoje, essa hegemonia da música em compasso é tão inabalável que as pessoas não conseguem pensar em música que não seja assim. Para se começar uma, escutamos as batidas da baqueta do baterista, ou a antecipação do pulso no gesto do maestro. Todo nosso cantar é rigidamente ordenado pelo tempo marcado e cronometrado. Mas tem um problema: o texto, a letra, nem sempre se encaixa nessa moldura! Surgem cacofonias e outros problemas ao se cantar. São os chamados erros de prosódia. Lembram-se de tantos “Santos” que cantamos em nossas missas? Hosana-nás alturas? Cacofonia! Ó, sombradú Altíssimo! Outro exemplo. Sem falar naquelas vezes em que, para fazer caber os versos do salmo dentro do esquema da frase de quatro compassos, o compositor junta tanto as sílabas que quem ouve não entende o que foi cantado, ou pior, entende outra coisa!

Nada disso acontece quando se cantila o texto. Entretanto, no final do século passado assistimos o abandono da cantilação dos salmos responsoriais em nossas missas. Com a reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio Vaticano II, a Igreja no Brasil esperava criar formas inculturadas, abrasileiradas, de se cantilar na missa, porém o que vimos foi a dominação do jeito evangélico norteamericano de se cantar, enxertado definitivamente na música brasileira por meio de sua poderosa indústria cultural. Para se ter exemplo disso, basta assistir ao programa de calouros do Raul Gil.

A Editora Paulus publicou livros maravilhosos sobre música litúrgica em uma coleção chamada liturgia e música. Um desses livros, chamado “Música brasileira na liturgia” [6], apresenta um conjunto de textos feitos por músicos católicos brasileiros poucos anos após a reforma litúrgica. É comovente perceber, naquelas pessoas que se reuniam nos Encontros Nacionais de Música Sacra, a empolgação para desenvolver formas inculturadas de música litúrgica, legitimamente brasileiras. E deixa a gente perplexo ver que seu projeto foi pro brejo do abandono e do esquecimento.

Mas vale resgatar algumas das ideias desse grupo de pessoas. O que passa na sua cabeça quando vem a ideia de cantilar, em estilo gregoriano, de cantochão, o salmo responsorial? Pense um pouco. Eu não sou adivinho nem paranormal, então não consigo saber o que você está pensando, mas vou dar uns chutes, certo? Lembrou de Roma, do Papa? Lembrou de coisas antigas? de missas de costas para o povo? Ah, pare aí, essa não vale! Como é que você lembra de algo que você nunca viu? A não ser que tenha mais de cinquenta anos… Coisa européia, estrangeira? Acertei alguma?

Gente, olhem só o que falou Mario de Andrade sobre a música brasileira. Sim, Mario de Andrade mesmo, o famoso poeta e escritor modernista, da Semana de Arte Moderna de 22. Vocês sabiam que, além de poeta e escritor, ele era músico? E que estudou profundamente a música brasileira, tendo publicado um livro de sua história? Bem, prestem atenção ao trecho que vou ler agora:

Me parece impossível que se deu um conflito grande entre as nossas tendências e a rítmica já organizada e quadrada que Portugal trouxe da civilização européia pra cá. Os ameríndios e possivelmente os africanos também se manifestavam numa rítmica provinda diretamente da prosódia, coincidindo pois em muitas manifestações com a rítmica discursiva do Gregoriano. As frases musicais dos indígenas de beiramar conservadas por Lery num tempo em que a rítmica medida ainda não estava arraigada no espírito europeu, sob o ponto de vista rítmico são verdadeiras frases de cantochão (…) [7]

Vejam que interessante: o cantochão tem tudo a ver com o jeito indígena brasileiro e, talvez, africano de se cantar! Quando ele fala na “rítmica organizada e quadrada trazida de Portugal”, está se referindo ao sistema mensurado, organizado em compassos, de que falei há pouco. Bem diferente das ideias que vêm à nossa mente quando falamos de canto gregoriano hoje, não é? Muitas músicas tradicionais brasileiras trazem esse sabor gregoriano. Lembram-se dos repentes?

Senhores donos da casa, o cantador pede licença

pra puxar a viola rasa aqui na vossa presença.

Esse é o começo do Desafio do Auto da Catingueira, do grande Elomar. Nele, não há compasso, e o ritmo e a melodia obedecem completamente aos acentos naturais do texto. Tem o mesmo sabor da cantilação gregoriana. Genuína manifestação de música brasileira! Eu poderia mostrar outros exemplos, mas isso levaria um tempo que nós não temos agora. Só queria mostrar para vocês que cantilar tem muito mais a ver com a música brasileira, e com a milenar tradição bíblica e da Igreja, do que o uso da música metrificada, americanizada.

Como eu falei um pouco atrás, a técnica de cantilar não é para qualquer um. Por causa disso, o povo parou de cantar os salmos e ficou apenas a escutar os especialistas cantarem durante os ofícios. No século XX, porém, um padre francês chamado Joseph Gelineau resolveu devolver os salmos ao povo! Ele criou fórmulas melódicas simples que acompanhavam os acentos naturais dos versículos dos salmos, devidamente adaptadas para a índole, o temperamento, da língua francesa. No Brasil, Padre José Weber e Frei Joel Postma cuidaram de traduzir e gravar em português os salmos usando essas fórmulas. Devolveram ao povo brasileiro os salmos! Várias dessas fórmulas são bem conhecidas por todos, mas têm sido abandonadas. A CNBB, por meio do atual assessor para liturgia, o querido Pe. José Sala, está fazendo um grande esforço para regravar todo o saltério cantado com as fórmulas de Gelineau. É um convite para a Igreja no Brasil reviver o sabor da cantilação dos salmos! Vale a pena escutar esse chamado! Eu soube por um amigo que o setor de música da CNBB está se preparando para publicar, semanalmente, gravações desses salmos dominicais em seu site da Internet. Isso deverá começar na próxima quaresma.

Cantarei agora, para terminar nossa conversa, o Magnificat, segundo uma fórmula de Gelineau.

O Senhor fez em mim maravilhas, Santo é seu nome!

- A minh’alma engrandece ao Senhor,
e se alegrou o meu esrito em Deus, meu Salvador,
- pois, ele viu a pequenez de sua serva,
eis que agora as gerações hão de chamar-me de bendita.

- O Poderoso fez por mim maravilhas
e Santo é o seu nome!
- Seu amor, de geração em geração,
chega a todos que o respeitam.

- Demonstrou o poder de seu braço,
dispersou os orgulhosos.
- Derrubou os poderosos de seus tronos
e os humildes exaltou.

- De bens saciou os famintos
e despediu, sem nada, os ricos.
- Acolheu Israel, seu servidor,
fiel ao seu amor,

- como havia prometido aos nossos pais,
em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre.

- Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo,
como era no princípio, agora e sempre. Amém.

 

Vou ficando por aqui, deixando um grande abraço aos ouvintes e aos amigos Betinho, Léo, Mônica e Pe. Rodrigo. Até o próximo programa, se Deus quiser!

Laércio Filho

Brasília / DF, 21 de janeiro de 2012.


[1] CNBB. A Música Litúrgica no Brasil. Estudos da CNBB nº 79, de 1998. § 227.

[2] CNBB. Introdução ao Missal Romano, n. 61.

[3] A Música Litúrgica no Brasil. §§ 249s.

[4] S. Pio X, papa. Motu proprio Tra Le Sollecitudini, n. 1.

[5] Para mais detalhes, BAUER, Henry. LUBIN, Abraham. LENT, Janice. “Chanting Scripture: Insights from the Jewish Experience”. In: Pastoral Music Vol. 35:5.

[6] ALBUQUERQUE, Amaro Cavalcanti. et. al. “Música brasileira na liturgia”. São Paulo: Paulus, 2005.

[7] ANDRADE, Mário de. In. “Música brasileira na liturgia”. P. 111.

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