Queridos ouvintes do programa Música & Cia,
Hoje vou aproveitar esse relaxamento do ano litúrgico, antes do início da quaresma, para conversar um pouco sobre os cantos do ordinário da missa. Para isso, contei com o auxílio de um livrinho muito bom, excelente mesmo, escrito pelo Fr. Joaquim Fonseca. Olha, sinceramente, eu gostaria que todos os coordenadores de ministério de música de Brasília o comprassem e lessem. Barato de comprar, editado pela editora Paulus, é o primeiro volume de uma coleção maravilhosa chamada Liturgia e Música. O título do livro é “Cantando a Missa e o Ofício Divino”. Tive a honra de ser aluno de Frei Joaquim durante o CELMU de 2011, na cidade de Agudos / SP. Ele morou aqui em Brasília durante os anos de 2003 e 2006, quando foi assessor da CNBB para música litúrgica. É frade franciscano menor, e por isso mesmo morou junto com seus irmãos na paróquia de Santo Antônio, na Asa Sul. Um apaixonado por liturgia e música.
Em nossa conversa de hoje citarei diversas partes desse livrinho, que também fala dos cantos do ofício divino, além dos da missa.
Bem, então ao assunto de hoje: cantos do ordinário. E o que é ordinário? É o que se contrapõe ao extraordinário. Ordinário tem a ver com ordem. Quando a gente fala em reunião ordinária, quer se referir àqueles encontros que fazemos regularmente. Assim também é na música litúrgica. Há alguns cantos que são, por assim dizer, fixos, que se cantam em todas as missas. Em nossas conversas passadas, conversamos sobre alguns cantos que variam de domingo para domingo, como o de comunhão e o salmo responsorial. Que outros cantos podemos chamar de móveis? E quais seriam esses fixos?
Bom, antes de responder, vale lembrar que, a rigor, a missa pode ser cantada do começo ao fim, sem interrupções. Desde o sinal da cruz até o “ide em paz”. Aliás, em algumas igrejas católicas orientais esse costume é mais comum. Quem já assistiu uma missa solene em uma igreja ortodoxa? O presidente canta o tempo inteirinho. Há uma mística muito bonita por trás dessa liturgia. Também pode ser assim em nossa missa romana, mas, é claro, somente em ocasiões bastante solenes e a critério de quem a preside. Um documento muito importante da Igreja sobre música litúrgica, chamado Musicam Sacram, sobre o qual vamos conversar outro dia, fala que há uma gradação de solenidade nas missas, na qual as missas mais solenes tem todos os cantos e, à medida em que recuamos o grau de solenidade, retiramos sucessivamente os cantos segundo uma ordem predeterminada. Mas isso é assunto para outro dia.
Por hoje vamos ficar nos cantos do ordinário. Levante sua mão direita. Olhe para seus dedos: quantos são? Cinco. Pois é. Então, cada dedinho seu é um desses cantos do ordinário. O primeiro, correspondendo a seu polegar, é o “Senhor Tende Piedade”, o ato penitencial. Depois, no indicador vamos colocar o “Glória”. E depois? No dedo médio, o “Creio”. Como é que é, Laércio, Creio?! Pois é, aguenta aí! No anular, coloque o “Santo”. Por fim, no dedo mínimo, o “Cordeiro de Deus”. São esses os cantos do ordinário. Eles não variam com o passar dos domingos.
Um por um, passemos todos esses cantos. Comecemos pelo “Senhor tende piedade”. Vejam como é interessante o que nos ensina a Instrução Geral do Missal Romano[1] sobre ele:
51. Em seguida, o sacerdote convida para o ato penitencial que, após breve pausa de silêncio, é realizado por toda a assembleia através de uma fórmula de confissão geral, e concluído pela absolvição do sacerdote, absolvição que, contudo, não possui a eficácia do sacramento da penitência.
Aos domingos, particularmente no tempo pascal, em lugar do ato penitencial de costume, pode-se fazer, por vezes, a bênção e aspersão da água em recordação do batismo.
52. Depois do ato penitencial inicia-se sempre o Senhor, tende piedade de nós, a não ser que já tenha sido rezado no próprio ato penitencial. Tratando-se de um canto em que os fiéis aclamam o Senhor e imploram sua misericórdia, é executado normalmente por todos, tomando parte nele o povo e o grupo de cantores ou o cantor.
(…)
Quando o Kyrie é cantado como parte do ato penitencial, antepõe-se a cada aclamação uma “invocação”.
Calma aí! São muitas informações de uma vez só. Em primeiro lugar, uma aviso aos músicos. Depois do momento em que o padre nos convida a reconhecer nossos pecados, há um momento de silêncio! Esperemos alguns segundos antes de dar os primeiros acordes. Notem também que a Instrução separa em dois momentos essa parte. Primeiro fazemos o ato penitencial propriamente dito, onde reconhecemos e confessamos nossos pecados. Vem então a absolvição do padre e, após ela, o canto do “Senhor, tende piedade”. Acontece que o missal abre uma possibilidade de se incluir o “Senhor, tende piedade” na primeira parte. O que isso significa, então, para nós músicos?
Significa que, durante o ato penitencial, podemos usar três tipos de cantos. Pode ser um canto penitencial, sem fazer as aclamações do “Senhor, tende piedade”. Neste caso, após a absolvição, o padre certamente puxará o Kyrie eleison. Podemos ainda não cantar durante o ato penitencial, usando um canto que simplesmente tenha como letra as aclamações a Cristo após a absolvição. Ou podemos, e acho que essa é a opção mais comum, usar um canto penitencial que inclua também o Kyrie eleison. Nestes casos, a instrução ao missal determina que, antes de cada aclamação seja antecedida por uma invocação. Tenho dois exemplos de cantos desse jeito conhecidos por todos vocês. O primeiro é o famoso número 244 do “Louvemos o Senhor”, de autoria do padre José Cândido: “Senhor, que vieste salvar os corações arrependidos…” O segundo é composição mais recente, divulgada pela Comunidade Shalom: “Como a ovelha perdida, pelo pecado ferida…” Interessante perceber a tendência recente que observo de retomar o uso das aclamações em grego “Kyrie eleison” e “Christe eleison”.
O que nos ensina Fr. Joaquim sobre esse canto? Ele nos conta que trata-se de uma:
aclamação suplicante a Cristo-Senhor e não uma forma de invocação trinitária (…) É o canto da assembleia reunida que invoca e reconhece a infinita misericórdia do Senhor. Aliás, Kyrios foi o nome mais comum dado a Cristo ressuscitado pelos primeiros cristãos [2].
Muito bem, passemos ao “Glória”. Vamos ao que estabelece a instrução ao missal sobre ele:
53. O Glória é um hino antiquíssimo e venerável, pelo qual a Igreja, congregada no Espírito Santo, glorifica e suplica a Deus Pai e ao Cordeiro. O texto deste hino não pode ser substituído por outro. Entoado pelo sacerdote ou, se for o caso, pelo cantor ou o grupo dos cantores, é cantado por toda a assembleia, ou pelo povo que o alterna com o grupo de cantores ou pelo próprio grupo de cantores. Se não for cantado, deve ser recitado por todos juntos, ou por dois coros dialogando entre si.
É cantado ou recitado aos domingos, exceto no tempo do Advento ou da Quaresma, nas solenidades e festas e ainda em celebrações especiais mais solenes.
Ao contrário do que nos sugeriram as letras de muitos dos hinos de louvor que temos cantado, não se trata de uma aclamação trinitária. Não é um “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”. Como dito na instrução, é voltado para o Pai e o Filho, ainda que na unidade do Espírito Santo. O texto não pode ser substituído. Isso tem sido um problema para nós, músicos do Brasil, que aprendemos tantos e tantos “Glorinhas trinitários”. Vários deles estava mesmo nos hinários litúrgicos da CNBB! Anos atrás, a Santa Sé emitiu uma determinação para que se voltasse a cantar o glória com a letra completa, original. A CNBB solicitou então reconsideração para o Brasil, considerando nossa realidade pastoral. Mas o pedido de reconsideração não foi aceito e, como diria o comentarista de futebol, “a regra é clara”: só vale a letra do hino completa. Devemos, então, na medida do possível, abandonar os velhos glorinhas com os quais crescemos nas missas.
Dou graças a Deus porque, desde que essa proibição veio a vigorar, muitos compositores brasileiros passaram a se dedicar à composição de glórias para nossas missas. Ficaram muito famosos, por conta da difusão na televisão e no rádio, aqueles feitos no seio da Comunidade Shalom, que tem se dedicado à música litúrgica. São dignos e podem ser usados sem problemas. Entretanto, eu compartilho a opinião de alguns amigos meus de que eles são muito solenes e complexos, e nossas assembleias precisam de opções mais simples para o uso cotidiano. Também acho que nossos compositores, preferindo adotar a estrutura refrão-estrofe, estão deixando de lado as formas alternadas, tão tradicionais, gostosas de cantar e indicadas na instrução ao missal. Mas esse assunto de forma e estrutura da música litúrgica vai ficar para uma conversa de outro dia.
Depois do Glória, vem o “Creio”. Trata-se de um canto que foi abandonado. Não conheço comunidades aqui em Brasília que o cantem regularmente. Mas pode ser cantado sim. A maior dificuldade para musicá-lo, e acho que essa foi a razão pela qual seu canto veio a ser abandonado, é colocar seus versos assimétricos na estrutura musical corrente: refrão-estrofe. Nossos músicos hoje só raciocinam a música desse jeito e aí fica difícil musicar mesmo. O Gen Verde, grupo musical italiano do Movimento Focolares, compôs e gravou uma versão bonita para o “Creio”, com um refrão que repete o verbo “Creio”. Mas não é música simples de se aprender. Tentamos introduzi-lo na paróquia São Francisco de Assis, na Asa Norte, mas a falta de continuidade não deixou que a assembleia a ele se acostumasse e acabamos deixando isso de lado. Compositores: se vocês quiserem musicar um creio, usem a estrutura alternada que a instrução ao missal sugere [3]! O povo de Deus agradece.
Poucos momentos depois, vem o “Santo”. Ele é um dos pontos altos da oração eucarística e deve ser proclamado por todo o povo. É a conclusão do prefácio proclamado pelo sacerdote. Sua letra reproduz o louvor celeste dos serafins, conforme o relato de Isaías 6, 3: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo, o céu e a terra proclamam vossa glória…”. A segunda parte de sua letra é encontrada em diversos pontos das Sagradas Escrituras, como no Salmo 118, expressando o brado de triunfo do povo de Deus que acolhe e aclama o Messias, o Salvador: “Bendito o que vem em nome do Senhor!”. Para saber se devemos cantá-lo, devemos combinar de antemão com o padre celebrante, ou esperar ver se ele convida, no prefácio da oração eucarística, a assembleia a “cantar” ou a “dizer”. Devemos usar cantos que reproduzam com fidelidade a letra do santo, evitando opções com letras muito alteradas.
Por fim, temos o canto do Cordeiro de Deus. Vamos ao que nos ensina a Instrução ao Missal [4]:
O sacerdote faz a fração do pão e coloca uma parte da hóstia no cálice (…) O grupo de cantores ou o cantor ordinariamente canta ou, ao menos, diz em voz alta a súplica Cordeiro de Deus, à qual o povo responde. A invocação acompanha a fração do pão; por isso, pode-se repetir quantas vezes for necessário até o final do rito. A última vez conclui-se com as palavras dai-nos a paz.
O Cordeiro de Deus é uma prece litânica, uma ladainha, que o cantor entoa e o povo responde. É interessante destacar que há um momento bem definido para iniciar esse canto. Olho aberto, músico! Logo após o abraço da paz, o presidente volta-se de novo para o altar e parte o pão. Esse é o momento para iniciar o “Cordeiro de Deus”. Como a instrução ensina, podemos repetir a invocação quantas vezes forem necessárias durante a fração do Pão eucarístico, mas geralmente ela é rápida, e a gente só faz as três vezes mesmo. Bom senso, pessoal! Se tivermos cantado o abraço da paz, não faz sentido nenhum deixar de cantar o Cordeiro de Deus. Cantem também. A gente sempre privilegia os cantos mais importantes, e vai acrescentando os menos importantes depois.
Espero ter podido acrescentar algo a seus conhecimentos sobre esses cantos de nossas missas. Usem isso para a maior glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Um grande abraço a todos e até o programa da semana que vem, se o bom Deus permitir!
Brasília / DF, 04/02/2012.
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