Olá, queridos ouvintes do Programa Música & Cia,
Amanhã é Epifania. Festa de Reis! Aliás, foi ontem. Isso porque a festa é marcada para o 6 de janeiro, mas a Igreja no Brasil a coloca sempre no domingo seguinte para facilitar a participação do povo nessa festa tão importante, mas sem feriado próprio. Não é somente festa: é solenidade. Também é dia de folia ainda em alguns lugares longe das capitais, das metrópoles onde só se pensa em trabalhar e ganhar dinheiro. Dia de desarrumar a decoração de Natal e guardá-la para o ano que vem. Enfim, dia de celebrar a manifestação de Jesus.
Como vocês bem sabem, a principal festa natalina da Igreja oriental, a católica ortodoxa dos países do oriente médio e da Europa oriental, é hoje. Eles ressaltam a importância da manifestação do Deus feito homem a todas as nações. Isaías já nos falará, na primeira leitura (Is 60, 1-6):
Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou
a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor.
Eis que está a terra envolvida em trevas,
e nuvens escuras cobrem os povos;
mas sobre ti apareceu o Senhor,
e sua glória já se manifesta sobre ti.
Os povos caminham à tua luz
e os reis ao clarão de tua aurora.
A revelação do mistério de Deus não é só para os judeus, mas para todos, como nos falará o Apóstolo (Ef 3,2-3a.5-6):
Este mistério, Deus não o fez conhecer
aos homens das gerações passadas
mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito,
aos seus santos apóstolos e profetas:
os pagãos são admitidos à mesma herança,
são membros do corpo,
são associados à mesma promessa em Jesus Cristo,
por meio do Evangelho.
Então o Evangelho de Mateus (Mt 2, 1-12) vai nos contar a história que já conhecemos bem. Os magos, vindo do oriente, chegaram a Jerusalém, atrás do Menino que acabara de nascer. Esse evangelho tem uma ligação muito forte com o que lemos no Natal. Vamos nos lembrar do presépio. Ali, no meio, está Jesus. A seu redor, Santa Maria, São José e os bichos. E então uns pastores, vindos de um lado, e os magos, vindos do outro. Às vezes, as pessoas colocam um céu estrelado no fundo, onde há um cometa e um anjo. Pronto. O presépio resume os dois evangelhos, o do Natal e o da Epifania. De que jeito?
Por um lado, nós vemos os pastores para ver Jesus recém-nascido. Como é que eles foram parar ali? Chegaram no presépio indicados pelos anjos que apareceram cantando no céu. É o caminho da fé. Essa fé que os levou ao Deus feito homem. Por outro lado, vemos os magos. O que os levou a Belém? A estrela, hoje associada a um cometa, mas pode ter sido outro fenômeno celeste, como uma explosão estelar, ou outro. Não se sabe ao certo. O que sabemos é que guiou os magos um conhecimento muito esmerado dos céus, fruto da observação e do estudo. É o caminho da razão. Essa razão que, quando guiada com retidão, também leva a Deus. Então, a Jesus pode-se chegar pela fé e pela razão. Aliás, lembro sempre aquela passagem da terceira epístola de São Pedro (1Pd 3, 15): “… antes, santificai a Cristo, o Senhor, em vossos corações, estando sempre prontos a dar razão da vossa esperança, a todo aquele que vo-la pede”.
É com esse argumento, caros ouvintes, que desejo agora passar ao próximo assunto de nossa conversa de hoje, e que tem tudo a ver com música e com Epifania. Já ouviram falar da expressão “Lex orandi, lex credendi”? É uma frase em latim, que quer dizer algo como “a norma da oração é a norma da fé”. A gente acredita naquilo que a gente reza. Se rezamos bem, nossa fé é verdadeira. Se rezamos mal, nossa fé é capenga.
“Lex orandi, Lex credendi” também é o título de um manifesto assinado por três bispos brasileiros, e que pode ser lido no site da CNBB, na Internet. Ele fala sobre a urgente necessidade de capacitação de formadores litúrgico-musicais. Em certo lugar, eles escrevem que a música ritual, litúrgica, cristã é parte integrante da expressão ritual e contribui, de forma significativa, na vivência da fé. Então, para viver bem nossa fé cristã católica, precisamos cantar bem. Temos cantado bem? Vou citar outro trecho desse manifesto:
Este tipo de “teologia e espiritualidade parcializadas” expresso e alimentado no canto e na música – quase sempre oriundos, de “comunidades” vinculadas a movimentos – qual avalanche invadem mentes e corações de pessoas, grupos e comunidades. Diante disso muitos perguntam: É celebração da fé ou diversão religiosa? Que modelo de Igreja eles (canto e música) levam a vivenciar? Que tipo de compromisso cristão esse cantar “dominante” está motivando? Que cultura musical essa experiência está promovendo?..
São palavras duras. Infelizmente, a indústria cultural passou também a dominar a música religiosa cristã e, de quebra, também a música litúrgica católica. O esquema do “jabá” entrou nos templos, e, citando um exemplo, as linhas melódicas dos salmos responsoriais poderiam, algumas, vezes ter sido tiradas das paradas de sucessos. Por outro lado, a força da música evangélica é tão grande que faz entrar em nossas missas músicas que nunca deveriam estar ali. Às vezes são músicas com textos bíblicos, muito boas. Outras vezes são músicas com textos muito estranhos, que expressam a espiritualidade daquela comunidade cristã, daquele compositor, ou mesmo da moda. Mas não da fé católica. Cantando essas coisas, corremos até mesmo o risco de distorcer nossa fé.
Vamos para um exemplo, um exemplozinho sem muitas pretensões? Não vou falar mal de nenhuma música em concreto, mas falar de algumas que andaram nas rádios e nas vozes dos músicos pouco tempo atrás. Algumas delas compostas por compositores evangélicos pentecostais, outras por católicos. Todas elas insistiam no termo “usa-me, Senhor”, “quero ser usado por ti”… vocês vão se lembrar. Bem, qual é o problema com isso? Gente: Deus não usa ninguém para nada! Nós não somos usados por Deus, de jeito nenhum! Ele não quer isso de nós!
Quando a gente fala em uso, logo vem a ideia de finalidade. Qual é a finalidade do homem? Entrar na unidade perfeita da Santíssima Trindade (CIC, nº 260). O homem é a única criatura na terra que Deus quis por si mesma (nº 356). O homem não é um meio que Deus usa para chegar a uma finalidade. E aqui eu citando partes do Catecismo da Igreja Católica. Se tiverem curiosidade, dêem uma lida nos parágrafos 260, 356 e 1024. O homem, e somente ele, é chamado por Deus a compartilhar a vida de Deus, por conhecimento e por amor. Esta é nossa fé!
E não tem nada a ver com ser usado por ninguém, nem mesmo pelo Criador, que nos ama pelo que nós somos, de um jeito completamente gratuito! Esse desejo de ser usado por Deus tem muito mais a ver com patologias psicológicas do que com teologia. Bom, gente, isso foi só um exemplo para ilustrar o jeito que uma letra de música pode infiltrar em nossa oração coisas estranhas à nossa fé. E a norma da fé é a norma da oração!
Tudo bem, Laércio, mas como a gente faz, então? Vai todo mundo pra faculdade estudar teologia? Acho que não é necessário tudo isso, ainda que seja bom para todos aqueles que puderem fazê-lo. Mas todos os músicos que atuam em nossas celebrações litúrgicas precisam estudar um pouco mais. Ou bem mais. Precisamos ter uma formação mínima para poder separar o joio do trigo que tem sido feito em matéria de música religiosa. Saber filtrar aquilo que expressa nossa fé daquilo que é simplesmente expressão um tanto vazia de sentimentos pessoais. A gente não chega a Deus somente pela espiritualidade, nos ensinam os magos do oriente. Também chega pelo estudo e pelo conhecimento.
Para não ficar também só falando em teorias, quero deixar uma dica para nossos poetas e compositores: a Bíblia. Quase sempre uma música cuja letra foi tirada de um salmo ou de outro cântico bíblico será boa. Aos compositores, lanço um desafio: vamos parar um pouco de ficar escrevendo letras que saem de nossas cabeças, e começar a tirar dos salmos e dos cânticos o conteúdo de nossas músicas! Ali não tem erro, gente!
Para terminar nossa conversa, desejo que esta solenidade da Epifania, que celebraremos hoje à noite, seja oportunidade de iluminar nosso ministério de música tanto com a luz da fé quanto com a luz do conhecimento. Tanto com espiritualidade quanto com estudo. Porque o Senhor merece receber o melhor de nós, em todas nossas dimensões! Até o próximo programa, se Deus quiser!
Laércio Filho
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