Olá, queridos ouvintes do programa Música & Cia,
Voltamos ao Tempo Comum! Amanhã, retomamos o ciclo comum, que somente será interrompido na Quarta-Feira de Cinzas, iniciando a Quaresma. O momento é muito oportuno para a gente respirar, parar, olhar ao redor com calma para, então, seguir em frente.
Quero falar com vocês hoje de uma das maravilhas do mundo, uma das construções mais fantásticas feitas pela humanidade. Levou séculos e séculos para atingir seu estado atual, e ainda não dá para dizer que está completamente terminada, mas já é linda. Essa construção não é feita de pedras, de concreto ou de aço. Ao invés disso, é intelectual e espiritual. Seu nome? Elenco das Leituras da Missa. Com esse elenco desenvolvido ao longo de sua história pelas mãos de muitas pessoas, a Igreja tomou as Sagradas Escrituras e as lançou no Cosmos e no Tempo. É como se a Bíblia fosse um livro feito de cristal, através do qual fizéssemos passar um raio de luz muito forte e dele saísse um arco-íris em direção ao céu estrelado, iluminando e dando cores ao escuro da noite, como se fosse uma aurora boreal. A luz que projetamos através da Bíblia é a Liturgia. A Palavra de Deus, compilada em um volume encadernado, passou a povoar o tempo, os ciclos da primavera, do verão, do outono e do inverno, da vida dos homens e da natureza. A Palavra de Deus, por meio da sagrada Liturgia, foi transubstanciada da palavra escrita e encadernada para palavra viva no tempo e no espaço!
Mas isso tudo foi submetido a uma ordem admirável. Tudo se encaixa de uma maneira surpreendente. Passagens do Antigo Testamento são colocadas junto a trechos dos Evangelhos e, assim, ganham um brilho especial: uma explica a outra! Trechos que, lidos isoladamente, são muito complicados restam esclarecidos nessa pedagogia da liturgia. Montar todo esse esquema interpretativo, unindo todos os livros das Sagradas Escrituras ao redor do mistério da encarnação, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, é que foi essa espetacular obra intelectual de que falei.
A “Introdução ao Lecionário da Missa”, editado pela CNBB em 1993, é um documento muito interessante, e cuja leitura é importante para todas as pessoas que trabalham na liturgia, inclusive os músicos. Nele, conta-se que a escolha do elenco de leituras da missa levou em conta a sucessão dos tempos litúrgicos e também os princípios de interpretação dos textos bíblicos dos quais a Igreja se vale para estudar e compreender a Palavra de Deus.
Também esclarece que, por importância e tradição, alguns livros da Sagrada Escritura foram reservados para determinados tempos litúrgicos como, por exemplo, os Atos dos Apóstolos para o Tempo Pascal, ou o Evangelho segundo São João nas últimas semanas da Quaresma e no Tempo Pascal, ou a primeira parte do livro de Isaías no Advento, ou ainda a primeira carta de São João no Tempo do Natal.
De uma maneira geral, o tempo litúrgico determina quais serão os trechos lidos nas missas. O tempo do Advento, que vivemos há poucos dias, tem leituras evangélicas que tratam da vinda do Senhor no final dos tempos, de João Batista e da iminência do nascimento de Cristo. Por sua vez, nele, as leituras do Antigo Testamento são profecias sobre o Messias e seu tempo. Já as leituras do Apóstolo contém ensinamentos acerca dessas coisas.
E como se passa no Tempo Comum, que estamos a adentrar agora?
Nele, a leitura dos Evangelhos é a chamada “semicontínua” dos evangelhos sinóticos. Ao longo do Tempo Comum, lê-se, domingo a domingo, o evangelho sinótico daquele ano, mais ou menos em sequência. Dessa forma, garante-se um interessante paralelismo com os tempos litúrgicos que vão se inserindo. Logo após a Epifania, que celebramos nesta semana, lêem-se os começos da pregação de Jesus, muito relacionados a seu Batismo e primeira manifestação. Lá no final do ano, em outubro e novembro, chega-se naturalmente ao tema do final dos tempos, com os chamados discursos escatológicos de Jesus. Tudo encaixado admiravelmente! Neste ano, chamado ano “B”, leremos o Evangelho segundo São Marcos. O Tempo Comum é ou não é importante?
Então, caros ouvintes, agora chegamos a um assunto que interessa muito a todos os músicos que tocam e cantam em nossas celebrações litúrgicas. A escolha das músicas. Não dá para falar sobre tudo de uma vez só, mas hoje quero conversar com vocês sobre o canto de comunhão.
Antes de falar propriamente do canto de comunhão, quero falar sobre as duas mesas. Vocês sabem de quais duas mesas eu estou falando? Mesa da Palavra e Mesa da Eucaristia. Na mesa fica nosso alimento, onde nós nos dirigimos para apanhá-lo. Quero não falar só sobre essas duas mesas, mas falar da sua relação, muito íntima, inseparável mesmo.
A espiritualidade dos católicos é alimentada nessas duas mesas. A Igreja, em uma mesa, instrui-se mais, e na outra, santifica-se mais plenamente; pois na Palavra de Deus se anuncia a aliança divina, e na Eucaristia se renova esta mesma aliança nova e eterna. Estou aqui citando documentos do Concílio Vaticano II. Vamos a outro trecho:
Estão tão intimamente ligadas entre si as duas partes de que se compõe, de algum modo, a missa – a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística – que formam um só ato de culto [1].
“A Palavra de Deus e o mistério eucarístico foram honrados pela Igreja com a mesma veneração, embora com diferente culto” [2]. “A pregação da palavra é necessária para o próprio ministério dos sacramentos, visto que são sacramentos da fé, a qual nasce da palavra e nela se alimenta” [3].
A Missa não é dividida em duas partes. A divisão que estabelecemos entre “liturgia da Palavra” e “liturgia Eucarística” é meramente para efeitos de classificação e ordem, mas não há dois cultos, um depois do outro. Há somente um! Vocês já devem ter conhecido pessoas que gostam de chegar mais ou menos na hora do ofertório, para ficar ali até receber a Comunhão e, então, ir embora. Tem gente que fala que gosta mesmo é do “filé mignon” da missa, a liturgia eucarística. Isso está errado! Aliás, nem precisamos ir a esses casos extremos. Temos muitos irmãos que até mudam a postura quando o padre fala “Corações ao alto!”. Para eles, parece que a missa começou para valer a partir dali. Isso é falta de uma adequada catequese, que ensine às pessoas a dignidade da liturgia da Palavra e a unidade da Missa.
Bem, nós estamos conversando sobre coisas muito importantes, mas parece que fugimos ao assunto. Não íamos falar sobre o canto de comunhão? Até agora só falamos da liturgia da Palavra e da liturgia Eucarística! Bem, espero conduzi-los bem e mostrar-lhes que tudo isso está estreitamente conectado.
Em primeiro lugar, vamos tentar corrigir algo que já fiz, e que já vi muita gente fazer, mas que não está completamente correto. Vamos preparar as músicas para a próxima missa? Então vamos pegar as leituras do dia para lê-las, meditá-las, e escolher as músicas. Tudo bem? Mais ou menos.
Não vimos, em nossa conversa até agora, como são escolhidas as leituras das missas? Elas não estão subordinadas a critérios maiores? Qual é o critério mais importante, aquele que dá o tema de uma determinada missa? É o tempo litúrgico! Então, em primeiro lugar, atentamos para o tempo litúrgico em que estamos a viver. Se for o começo do Advento, o tema é a segunda vinda de Jesus, ou a vida e profecia de São João Batista. Se for o começo do tempo pascal, serão as aparições de Cristo ressuscitado. Se for no tempo comum… bem, aí teremos diversos momentos específicos. A Igreja no Brasil propõe os chamados meses temáticos, que são agosto, setembro e outubro. Cada um deles vai trabalhar uma dimensão da vida do cristão, e isso deve orientar a escolha dos cantos. Tudo isso antes de se debruçar sobre as leituras do dia, entenderam? Então, em primeiro lugar, o tempo litúrgico, em segundo, as leituras do dia determinam quais serão os cantos que escolheremos para uma missa.
Mas há um canto que está intimamente ligado ao Evangelho do dia, e esse é o canto de comunhão! Devemos, sempre que for possível, escolher um que seja eco da palavra proclamada naquele dia no Evangelho. Por quê? Para tentar dar uma boa explicação, passarei agora também a citar passagens de uma palestra fantástica dada pelo Dr. Paul Ford na sessão plenária da convenção do ano passado da Associação Nacional dos Músicos Católicos dos Estados Unidos.
Lembram-se de que falamos há pouco sobre a unidade entre as duas mesas, a da Palavra e a eucarística? Há uma metáfora muito bonita, citada naquela palestra: “A Liturgia da Palavra, especialmente o Evangelho, é o forno que o Espírito Santo usa para assar o Pão Eucarístico. Ela é a barrica que o Espírito Santo usa para fermentar o Vinho Eucarístico.” Quando o fiel se levanta para a comunhão, cantará as próprias “palavras de promessa” recebidas no Evangelho. Elas terminarão de preparar a temperatura da alma para receber o Pão dos Anjos. Nesse momento, se vivencia essa unidade entre a Palavra e a Eucaristia. E nós, músicos, podemos promover essa vivência.
Paul Ford, como bom americano, apanhou todos os principais hinários tradicionais da Igreja, conhecidos como Graduales, e contou todos os cantos de comunhão ali presentes. Separou os que falavam de trechos dos Evangelhos dos outros, mais concentrados nas imagens do Vinho e do Pão. Foi interessante o resultado de sua contagem. A imensa maioria era de cantos tirados dos Evangelhos e apenas muitos poucos faziam menções explícitas ao Corpo e Sangue de Cristo! Ele tomou o Graduale Romanum (apenas 8 dentre 163 cantos de comunhão faziam menção às espécies eucarísticas), o Graduale Symplex (4 dentre 62) e o Sacramentário de 1998 (edição americana. 68 dentre 618).
Ele então se pergunta o porquê dessa pouca presença de cantos de comunhão sobre o Corpo e o Sangue. Se pergunta: o que os hinários mais tradicionais da Igreja nos têm a dizer sobre isso? E a resposta é porque a Comunhão é fruto da Palavra proclamada, que nos restaura e transforma nossas vidas. Ela já seria muito se fosse simplesmente Presença Real do Corpo e Sangue de Cristo, mas essa presença não se resume a si mesma. Por causa disso, diz Paul Ford, a melhor música de comunhão é aquela que cita a Palavra proclamada. “A Liturgia da Palavra é o forno que o Espírito Santo usa para assar o Pão Eucarístico. Ela é a barrica que o Espírito Santo usa para fermentar o Vinho Eucarístico.” A Comunhão é o pleno cumprimento daquilo que, minutos antes, foi anunciado como promessa.
Que beleza, não? Mais adiante, nosso palestrante dá algumas orientações de como deve ser um bom canto de comunhão. Elas são interessantes. Esse canto deve ser longo o suficiente e interessante o suficiente para suportar o peso das repetições. Seu estilo deve ser processional e responsorial, ou seja, deve ter o andamento de um canto para se cantar andando, e deve alternar participações entre os cantores e toda a assembleia. Este último detalhe considero muito interessante. Não é necessário que o povo cante tudo. Aliás, pode ser cansativo mesmo. Basta que cante os refrões, que os cantores se encarregam das estrofes. Assim, fica fácil memorizar e cantar sem o papel na mão, coisa que se pode fazer na fila de comunhão. Vi muito isso nas missas que assisti nos Estados Unidos. Acho que funciona muito bem e poderia ser tentado por aqui.
Infelizmente, faltam cantos que falem de partes dos Evangelhos. Este é um desafio para nossos compositores! Mas os hinários litúrgicos da CNBB, especialmente o do tempo comum, apresentam um conjunto completo de cantos de comunhão desse jeito. A solução que eles encontraram foi colocar nos refrões uma passagem do Evangelho do dia e, nas estrofes, versículos de um salmo que, de alguma maneira, tenha relação com o assunto. Vale a pena estudar e conhecer esses cantos.
Até o próximo programa, se Deus quiser!
Laércio Filho
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