Queridos ouvintes do programa Música & Cia,
Estive muito longe de casa esta semana. Longe de minha biblioteca caseira e de uma conexão rápida à Internet. Fiquei impossibilitado, então, de preparar para vocês qualquer material realmente útil a respeito da nossa amada música litúrgica. Que me resta, então, para contar a vocês que faça alguma diferença, que some algo aos conhecimentos que vocês já têm?
Sem ter como preparar um material digno, me sobra dar a vocês um testemunho, e é o que farei hoje. Nestas distantes terras acreanas em que estou a trabalhar, aos pés do altar da imponente catedral de Nossa Senhora de Nazaré, tive a ideia de fazer memória de meus encontros com o Senhor e com sua Igreja Brasil afora.
Anos atrás, ao final de uma cansativa semana de trabalho, ao fim da tarde coloquei meu par de tênis e short para correr. Me hospedava ao lado da Praça dos Girassóis, na cidade de Palmas, e resolvi correr por ali mesmo, antes que a noite avançasse. Passando pelos caminhos desconhecidos, depois de certo tempo, escutei pessoas a cantar. Não pude identificar as palavras, mas a melodia tinha algo de casto, de puro. Não podia ser de música profana, então. Seria culto evangélico? De ouvidos atentos, ainda a correr, pensei que não. Mesmo sem conhecer aquela música, ela me parecia familiar. Então era uma missa! Segui o sentido do som e, depois de idas e vindas, localizei um barracão fechado com tapumes. Eram as instalações provisórias da Catedral de Palmas, ainda em fase inicial de construção. Proclamava-se o Evangelho naquele momento. Uma faixa de pano indicava quem presidia a celebração: ninguém menos que D. Alberto Taveira, então bispo daquela diocese. Estávamos às vésperas de Pentecostes e o tríduo começava naquele dia. Recebi a graça de celebrar com aquela comunidade toda a liturgia do tríduo, e ainda lembro com gratidão as catequeses sobre o Espírito Santo e seus dons que D. Taveira proferiu naqueles dias.
Noutra ocasião, aproveitei o pouco tempo que tinha livre para caminhar à beira do mar, na praia dos Ingleses, ao norte da Ilha de Santa Catarina. Já era noite. Não conhecia o lugar. Chegando ao final da extensão urbanizada, ouvi uma música. Não tive dificuldades para reconhecer um canto de comunhão. Deixei a faixa de areia e aproximei-me na direção do som, entrando por uma viela (ou servidão, como eles dizem por lá) e virei à esquerda para entrar num pátio estreito, ao redor do qual se espremiam a fachada principal de uma pequena, mas bonita, igreja e outras edificações do complexo paroquial. De bermudas e sujo de areia, não quis entrar, então me sentei feito cachorro de igreja à porta, ouvindo o povo cantar. Não esqueço aqueles momentos. Terminada a procissão de comunhão, começou outro canto, muito suave e belo. A maior parte dos presentes cantava, com visível expressão de quem realmente vivenciava a maravilha de se unir ao corpo do Ressuscitado. Saí ao final da celebração e fiz o caminho de volta completamente renovado.
Não foram poucas as graças que recebi por meio da liturgia durante as vezes que estava longe de casa. Quase sempre potencializadas pela música que se cantava na liturgia. Às vezes na grandiosidade do Santuário Nacional de Aparecida, durante a procissão da padroeira. Outras na simplicidade das cordas de aço invertidas dedilhadas por uma senhora, às margens do São Francisco. Ou em Pirenópolis, durante as procissões de comunhão em direção à mureta, onde se ajoelham cantando homens e mulheres para receber o Pão dos Anjos do padre que passa. Também ao sentir quase que na pele a fé do povo pobre cantando, numa comunidade eclesial de base em Jequié. Às vezes me emocionando com o pequeno e animado grupo de velhinhos cantores ao redor do harmônio tocado com brilho por um vovô, na missa das sete da manhã de uma terça-feira, no templo de Nossa Senhora de Copacabana.
Lembro-me sempre de uma vez que, trabalhando na região de Brasiléia, junto à fronteira amazônica com a Bolívia, escutei, do quarto da pensão em que estava, um sino a tocar. Qual ovelhinha que escuta a voz do pastor, coloquei os sapatos e desci para a missa. Não havia música e o padre sequer falava português direito. Seu rosto de índio revelava sua nacionalidade boliviana. Devia atravessar diariamente a fronteira para dar apoio pastoral por aquelas bandas. Mas, tudo bem, aquela simplérrima celebração foi plenamente eficaz para, tão longe de casa, me fazer sentir-me no lar.
Fico consolado, quando estou distante de meus amados, ao participar da sagrada liturgia. De repente, tudo que me é familiar e querido está comigo, junto a meu Deus que se achega na Palavra, na pregação e na Eucaristia. A Igreja nos ensina que uma das obras de caridade consiste em acolher o estrangeiro. Antes, pensava nisso como sendo receber em casa um refugiado… Essas coisas que nunca acontecem em nossa existência cotidiana. Nesta semana, percebi de um jeito claro que celebrar com zelo e amor a liturgia é uma das formas de se acolher o estrangeiro! É um ato de caridade! Quantas vezes somos nós o estrangeiro, longe do lar e de todos os que amamos, que nos reconfortamos nas missas? Quantas vezes, mesmo que não nos demos conta disso, há estrangeiros anônimos em nossas paróquias, sentindo-se em casa com os cantos, orações e preces?
Nossa liturgia nos une. Nos faz Igreja una e universal. Que nosso canto seja também promotor de unidade e acolhimento. Que seja oração que nos santifica, sinal de comunhão e comprometimento, instrumento para enxugar as lágrimas dos desterrados nesta terra de peregrinos!
Um grande abraço a todos!
Laércio Filho
Rio Branco / AC, 27/01/2012.
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